sábado, 28 de maio de 2016

O amor bate na aorta

Caminhava lentamente pela rua. 6:30 da manhã. Poucas pessoas povoavam as calçadas claras de Juiz de Fora. Caminhava lentamente pela rua.
Sua alma estava, ao contrário das calçadas, bastante povoada. Mas, dentro de si, mais do que pessoas, havia sentimentos. O amor batia na aorta. Seu coração pulsava ao som da música que penetrava seus ouvidos. Olhava para o céu azul que, aos poucos, absorvia a luz do Sol crescendo no horizonte. Parecia cena de filme, mas era apenas Ana com um sorriso leve no rosto, sentindo algo que há alguns meses não sentia: leveza.
Ao contrário do que sua face sempre radiante dizia, Ana não estava de bem com a vida nos últimos meses. Seu coração havia sido despedaçado, sua mente havia sido impregnada por pensamentos ruins, a negatividade invadia sua alma. Tempo para pensar não mais havia. Tempo para viver já havia se esgotado. Não inspirava arte, não expirava gás carbônico. Dentro de seus pulmões havia teias de aranha que impediam sua respiração nasal. E Ana respirava apenas pela boca desde então.
Sentia um forte cansaço no peito com frequência e uma vontade de chorar continua. Vejam só, até pensou em se jogar do quinto andar. Cruz credo, menina! Onde já se viu pensar na morte desse jeito? Mas continuou, em vez disso, empurrando sua vida com a barriga (que agora estava 2 kg maior), sonhando com o dia em que acordaria sorrindo.
E acordou. Hoje, Ana acordou sorrindo. Contaminada por alguns vírus que decidiram se instalar em sua garganta e em um de seus dedos da mão esquerda, Ana sorria mesmo assim. Conseguia, mesmo gripada, respirar continuamente pelo nariz. Pensava em viajar, em sonhar novamente com um futuro bom. Pensava no que realmente a faria feliz. Pensava no feriado bem dormido, nos gastos com futilidade. Mas estava feliz.
Caminhava pela Gilhorta sentindo o amor bater na aorta. E na porta também. Um amor incrivelmente próprio. Uma necessidade irrecusável de se fazer feliz. Uma vontade de contar segredos e sonhos para si mesma. Uma coisa fora do comum essa sensação. E Ana sorria. Sorria porque sabia que talvez fosse um sentimento efêmero e que deveria ser vivido a cada instante. Sorria porque talvez fosse um sentimento intenso que a faria ver a vida de um ângulo superior. Coisa de arquiteto.

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