terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Um Conto de Carnaval

Era Carnaval. Cristal, como era de se esperar, comprara sua fantasia, seu vestido cheio de detalhes e decoros, a alegria em forma de miçangas e cores.  A jovem mulher, desde pequena, pulava carnaval, e não seria diferente naquele ano.
Estava feliz. As coisas andavam fluindo em sua vida. Seu trabalho lhe rendendo bons frutos, seu apartamento comprado com muito suor, seu carro ocupando uma das duas vagas a que tinha direito em seu prédio. Era feliz. Sua família era presente, tinha bons amigos, era uma pessoa comum com uma flor dentro do peito.
Mas, naquele sábado de carnaval, Cristal se sentira mais feliz, uma felicidade diferente de todas aquelas vividas. Parecia ocorrer dentro de si um misto de dor e angústia que lhe soava como ansiedade, mas que de nada se assemelhava a isso. Sentia seu corpo estalando, como um mar de ossos sendo empurrados uns contra os outros. Dentro de seu peito, o coração batucava forte, como os tambores marcando o ritmo do samba de sua escola.
Decidiu ocupar sua mente, então, arrumando-se, despindo-se e, logo depois, vestindo-se com sua fantasia, como em um ritual contínuo de preparo para o grande momento. Quando estava finalmente pronta, a boca e as maçãs do rosto coradas, os cílios amontoados de rímel, olhou-se no espelho e, singelamente, sorriu. Viu a flor que se desabrochava dentro de seu peito, sentindo a alegria novamente ir tomando seu corpo, dando um aperto em seu coração. A menina que, dentro dela, escondia-se, havia crescido e, agora, habitava uma grande mulher. Evitando borrar a maquiagem, limpou a lágrima que escorrera no canto dos olhos e sorriu ainda mais intensamente, sentindo a angústia novamente tomar seu corpo. Ignorou-a e buscou dar-lhe a desculpa de pura ansiedade.
Era o grande momento. Enquanto se aproximava da rua lotada de foliões, sentia a música invadindo aos poucos seu ouvido, tornando-se cada vez mais nítida e marcada. Sentia as veias pulsando em seu pescoço enquanto dava passos largos com seu par de saltos sob os pés. A melodia invadia cada parte de seu corpo, cada entranha, criando dentro de Cristal a necessidade de fechar seus olhos e acompanhar o ritmo da dança. E foi-se assim, percorrendo a rua de pedras, invadindo a multidão que se aproximava.  Caminhava de olhos fechados, cantando e rebolando os quadris, reproduzindo o ritmo da música que soava agora mais próxima. Sentia-se em êxtase. Cristal era feliz.
Foi quando sentiu uma pontada no peito, como aquelas mais leves que tivera durante o dia, mas que preferiu ignorar. Outra pontada, dessa vez mais forte, irradiava do centro de seu peito, expandindo-se pelo corpo. As pontadas iam se tornando mais intensas, mais doloridas, cortando Cristal, dilacerando-a aos poucos.  Buscando onde se apoiar, abriu os olhos. Não sabia ao certo o que fazer e, no fundo, percebia que não encontraria solução para o que sentia naquele momento.
Então, em um ato de impulso, Cristal fechou seus olhos e começou a sambar. As pernas se agitavam agonizantemente, enquanto a dor assumia o resto de seu corpo. Cristal pulava e sorria e sambava e cantava e crescia e crescia e crescia. Sua fantasia balançava e refletia a luz do sol que ardia acima de sua cabeça. Seus sapatos contra o chão criavam uma onda que ia de seus pés até o pescoço, gerando uma sintonia única entre seu corpo e a música que a invadia. Cristal ia crescendo mais e mais.
De repente, Cristal caiu. Seu corpo se uniu ao chão irregular, os joelhos e o rosto indo ao encontro do piso de pedras, o sangue, aos poucos, saindo de sua delicada pele. Sua fantasia, contudo, parecia ganhar mais brilho naquele momento, esticada no chão junto à moça. Cristal se espatifou no chão. A delicada flor que havia desabrochado em meio ao caos, murchou sorrindo.
Olhares a percorriam. Olhares desconhecidos de pessoas que, assim como ela, eram seres comuns buscando a felicidade em um momento de festejo. Olhares de incerteza. Como se pode murchar em meio à felicidade efêmera do Carnaval? Todos se questionavam. No fundo, sabiam que em dias de alegria, não deveria haver lágrimas e tristeza.  Já não basta a vida toda para isso?

Mas Cristal não sofrera. Era feliz. Não era mais uma mulher comum sambando sorrindo. Era uma mulher completa sambando sorrindo pelas ruas da vida. E, ao som de Chico Buarque, o coração da rosa parou. Sua fantasia refletindo a luz do sol pareceu acomodá-la como um manto. E ali ficou Cristal, até o soar de sirenes e o parar dos tambores anunciarem o sepultamento de sua felicidade. 

Crônica sobre 23/02/2016

    Hoje, como todos os dias, acordei, peguei meu celular, abri o Facebook e dei uma olhada no feed de notícias. Esperava encontrar alguma publicação sobre novos casos de dengue, fotos e compartilhamentos de amigos, ou qualquer coisa do tipo. Em vez disso, deparei-me com diversas postagens sobre um acontecimento ocorrido hoje no período da manhã: uma dita tentativa de estupro a uma funcionária de uma instituição de ensino da minha cidade, fato vivenciado no local. Algumas páginas de notícia diziam ter sido uma tentativa de roubo, outras diziam que havia sido sim uma tentativa de estupro.
    Não entrando no mérito de ter sido ou não, decidi escrever sobre uma decisão tomada por algumas instituições de ensino que pode ser, agora, tanto um avanço quanto aos direitos dos transexuais como um retrocesso quanto à violência, em especial, contra a mulher. No final de 2015, uma instituição específica declarou um lema que dava às pessoas o direito de usar qualquer um dos banheiros, feminino ou masculino, de acordo com o gênero a que se sentisse pertencido. A ideia principal era trazer à faculdade o molde contemporâneo de respeito à diversidade. 
    Inicialmente, analisando por um ponto de vista específico, trata-se de um grande avanço quanto aos direitos de pessoas que não se sentem confortáveis utilizando banheiros que não seguem o gênero a que pertencem (no caso de transexuais). Porém, analisando o fato com um olhar inclusive mais malicioso, percebe-se que muitas pessoas poderão abusar desse direito, utilizando-o como uma arma de violência e estupro.
    Quando dois homens entram em um banheiro feminino afirmando se identificarem com o gênero feminino , não há provas de que estão sendo verdadeiros ou não. Contudo devem ser respeitados e o uso dos banheiros por parte de ambos não pode ser restrito. Se dois homens, porém, fazem uso dessa afirmação para entrarem em um banheiro e estuprarem uma mulher que está sozinha no local, a situação se torna um tanto complicada.
    O exemplo acima não foi noticiado. Trata-se de uma suposição para nos levar à reflexão e até a uma maior cautela por parte não só de nós mulheres, mas também dos homens. Deve-se respeitar sempre todos os gêneros, sem restrição. Mas, ao mesmo tempo em que se percebe um grande avanço em um ponto, parece haver um retrocesso em outro. O fato de haver uma maior possibilidade de violência contra, principalmente, a mulher, gera em nós um medo ainda mais intenso em relação a essa situação. O que deveremos fazer? Esperar os mesmos saírem dos sanitários para, então, podermos entrar? Ou entrar sempre em grupos em tais locais? O medo parece se tornar cada vez mais intenso. 
    Em relação à última referência, não se sabe ao certo o melhor a se fazer, pois toda medida tem um lado bom e ruim. Contudo, cabe aos órgãos responsáveis pela vigilância dessas instituições garantir a fiscalização de tais pontos, permitindo a todos, não apenas às mulheres, a preservação de seus direitos e de sua segurança, abrandando os empecilhos de tal decisão.