Era Carnaval. Cristal, como era de se esperar, comprara sua
fantasia, seu vestido cheio
de detalhes e decoros, a alegria em forma de miçangas e cores. A jovem mulher, desde pequena, pulava
carnaval, e não seria diferente naquele ano.
Estava feliz. As coisas andavam fluindo em sua vida. Seu
trabalho lhe rendendo bons frutos, seu apartamento comprado com muito suor, seu
carro ocupando uma das duas vagas a que tinha direito em seu prédio. Era feliz.
Sua família era presente, tinha bons amigos, era uma pessoa comum com uma flor
dentro do peito.
Mas, naquele sábado de carnaval, Cristal se sentira mais
feliz, uma felicidade diferente de todas aquelas vividas. Parecia ocorrer
dentro de si um misto de dor e angústia que lhe soava como ansiedade, mas que
de nada se assemelhava a isso. Sentia seu corpo estalando, como um mar de ossos
sendo empurrados uns contra os outros. Dentro de seu peito, o coração batucava
forte, como os tambores marcando o ritmo do samba de sua escola.
Decidiu ocupar sua mente, então, arrumando-se, despindo-se e,
logo depois, vestindo-se com sua fantasia, como em um ritual contínuo de
preparo para o grande momento. Quando estava finalmente pronta, a boca e as
maçãs do rosto coradas, os cílios amontoados de rímel, olhou-se no espelho e,
singelamente, sorriu. Viu a flor que se desabrochava dentro de seu peito,
sentindo a alegria novamente ir tomando seu corpo, dando um aperto em seu coração.
A menina que, dentro dela, escondia-se, havia crescido e, agora, habitava uma
grande mulher. Evitando borrar a maquiagem, limpou a lágrima que escorrera no
canto dos olhos e sorriu ainda mais intensamente, sentindo a angústia novamente
tomar seu corpo. Ignorou-a e buscou dar-lhe a desculpa de pura ansiedade.
Era o grande momento. Enquanto se aproximava da rua lotada de
foliões, sentia a música invadindo aos poucos seu ouvido, tornando-se cada vez
mais nítida e marcada. Sentia as veias pulsando em seu pescoço enquanto dava
passos largos com seu par de saltos sob os pés. A melodia invadia cada parte de
seu corpo, cada entranha, criando dentro de Cristal a necessidade de fechar
seus olhos e acompanhar o ritmo da dança. E foi-se assim, percorrendo a rua de
pedras, invadindo a multidão que se aproximava.
Caminhava de olhos fechados, cantando e rebolando os quadris,
reproduzindo o ritmo da música que soava agora mais próxima. Sentia-se em
êxtase. Cristal era feliz.
Foi quando sentiu uma pontada no peito, como aquelas mais
leves que tivera durante o dia, mas que preferiu ignorar. Outra pontada, dessa
vez mais forte, irradiava do centro de seu peito, expandindo-se pelo corpo. As
pontadas iam se tornando mais intensas, mais doloridas, cortando Cristal,
dilacerando-a aos poucos. Buscando onde se apoiar, abriu os olhos. Não sabia ao certo o que fazer e,
no fundo, percebia que não encontraria solução para o que sentia naquele
momento.
Então, em um ato de impulso, Cristal fechou seus olhos e
começou a sambar. As pernas se agitavam agonizantemente, enquanto a dor assumia
o resto de seu corpo. Cristal pulava e sorria e sambava e cantava e crescia e
crescia e crescia. Sua fantasia balançava e refletia a luz do sol que ardia
acima de sua cabeça. Seus sapatos contra o chão criavam uma onda que ia de seus
pés até o pescoço, gerando uma sintonia única entre seu corpo e a música que a
invadia. Cristal ia crescendo mais e mais.
De repente, Cristal caiu. Seu corpo se uniu ao chão
irregular, os joelhos e o rosto indo ao encontro do piso de pedras, o sangue,
aos poucos, saindo de sua delicada pele. Sua fantasia, contudo, parecia ganhar
mais brilho naquele momento, esticada no chão junto à moça. Cristal se
espatifou no chão. A delicada flor que havia desabrochado em meio ao caos,
murchou sorrindo.
Olhares a percorriam. Olhares desconhecidos de pessoas que,
assim como ela, eram seres comuns buscando a felicidade em um momento de
festejo. Olhares de incerteza. Como se pode murchar em meio à felicidade
efêmera do Carnaval? Todos se questionavam. No fundo, sabiam que em dias de
alegria, não deveria haver lágrimas e tristeza. Já não basta a vida toda para isso?
Mas Cristal não sofrera. Era feliz.
Não era mais uma mulher comum sambando sorrindo. Era uma mulher completa
sambando sorrindo pelas ruas da vida. E, ao som de Chico Buarque, o coração da
rosa parou. Sua fantasia refletindo a luz do sol pareceu acomodá-la como um
manto. E ali ficou Cristal, até o soar de sirenes e o parar dos tambores
anunciarem o sepultamento de sua felicidade.
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