sábado, 16 de agosto de 2014

Prosa da solidão

"Os olhos dele eram bonitos, senhor, como eram! Castanhos, redondos, como duas bolas de gude da cor da escuridão. E os dentes, encolhidos sob os lábios tímidos e inseguros, demonstravam uma alegria inconfundível. Sua voz era marcante, seu andar como o mar levando as conchas bruscamente para o fundo do oceano. Poderia ter levantado, ido embora, esquecido. Mas preferiu continuar ali, procurando uma mera esperança em meio à solidão. Seu jeito machista, uma risada cortando a expressão cansada. Suas brincadeiras cômicas, suas palavras aconchegantes e seu olhar fitando o dela. Capitu, Capitu, pensava consigo, não vá se deixar levar por gestos simples. E, pensando nisso, encolhia-se, como se o amor já não pudesse ser percebido, como se sentir fosse algo proibido. E talvez fosse, amar alguém assim tão bonito, talvez fosse. Ou se tratasse de mera coincidência chover sob seus olhos uma imensidão de sóis e gotas reluzentes, que, em meio ao fim da noite, refletiam o brilho das estrelas mortas. Talvez amasse intensamente ou talvez fosse apenas a vida pregando-lhe mais uma de suas peças."

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