“Sim”, ouviu a fala taciturna em
seu ouvido. As lágrimas escorreram pelos seus olhos castanhos e já cansados.
Olhou para o chão, pedindo-lhe que se abrisse e afogasse todas as mágoas que a
atormentavam naquele exato momento.
Cida já não respirava quando foi
vê-la. Seus olhos azuis, ainda abertos, fitavam friamente os de Elza enquanto
essa buscava, em vão, salvar sua filha. Mas, nada podia fazer contra o destino
que, agora, a jogava de um precipício. Buscava nas mãos quentes de Maria um
meio de engolir todo aquele grito incessante que ecoava em sua mente.
Aos poucos, filhos, netos e
parentes tomaram o apartamento que, mesmo cheio, aparentava solidão. Alguns,
indiferentes, resistiam em se aproximar do corpo preso à cama, como se a
matéria, já sem alma, fosse se levantar e, como nos velhos tempos, sentar-se à mesa com um copo de cerveja na mão. Pobres,
podres, medíocres esses que se deixavam levar pela insensatez de um adeus não
revelado. E não menos aqueles que lamentavam em seu leito de morte, enquanto poderiam
ter se pronunciado em vida.
“O que os olhos não veem o
coração não sente.” pensou Elza, quebrando a faísca que saía de sua mente. Decidiu,
então, limpar o rosto úmido e passar seu café, buscando um meio simples de
esquecer o caos que a atingira e demonstrar estabilidade.
Mas, para que sua expressão não
aparentasse o que seu coração sentia, entrou em seu quarto e sentou-se na cama.
Com o terço em suas mãos, pediu a Deus que abençoasse sua filha. Compreendia o
quanto tinha lutado pela sua felicidade, mesmo nos momentos mais difíceis. E
continuaria fazendo o melhor para manter sua família unida, mesmo que estando,
agora, incompleta.
Pensando no amor que habitava sua
alma, fechou os olhos e respirou fundo. Vindo de dentro de sua mente, ouviu uma
voz rouca e já conhecida se manifestar. Era a voz da consciência, querendo
dizer-lhe o quanto era preciosa, esforçada e relevante. E essa voz, caro
leitor, essa voz era de Cida, gritando “Mãe, você é a heroína dessa história.”
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